A Bonequinha viu
  O blog da vovó
  Finita como flores
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Vovó viu o OVNI



Isto é uma mão escrevendo à mão. COm caneta, papel e caligrafia. Nunca vai desaparecer porque as coisas não desaparecem, se escondem. Mas eu mesma, tentei escrever um diário pra você à mão, mas não estou conseguindo. Hoje a gente digita. Futuramente talvez apenas mentalize. Ou quem sabe seus netos voltem a escrever com pena de ganso. É bonito ver uma coisa manuscrita, parece que vem com mais sentimentos. Mas, por outro lado, nunca escrevi tanto pra tanta gente agora que temos a internet. Uma coisa paga a outra.



Escrito por GlóriaH às 12h07
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Isto é uma fila. Uma fila chique e pequena, pra não te assustar. Se a fila desaparecer com o tempo, que bom, você terá esta memória. Se a fila aumentar muito, você terá a memória do tempo em que as filas chiques ainda eram pequenas. Se desaparecerem, é o seguinte. Uma pessoa atrás da outra esperando a vez de ser atendida. Hoje em dia existem muito mais pessoas querendo comprar do que pessoas contratadas pra vender. Depois que você se acostumar com a imagem, vou fotografar uma fila do metrô às seis horas da tarde. Aí você vai levar um choque. Mas as pessoas se acostumam e ninguém reclama. Sua avó reclama às vezes, escreve reclamações e faz discurso. Mas eu não conto, acham que eu sou "maluquinha"...

Quando eu ficar bem velhinha um dos meus divertimentos vai ser fazer discursoem fila e chamar as pessoas de ovelhinhas. Os velhinhos, e principalmente as velhinhas, são sempre desculpados...



Escrito por GlóriaH às 12h04
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Escrito por GlóriaH às 18h19
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No tempo da vovó

 

Houve uma mudança no tempo.

Antes, o intervalo entre estar disponível e desejado na vitrine e exposto como curiosidade num museu era imenso.

Hoje não sabemos. O tempo de vida dos objetos é cada vez menor, enquanto a nossa expectativa de vida cresce assustadoramente.

Isso quer dizer que tivemos que aumentar a nossa capacidade de lidar com o novo, e com o desapego.

Um desvio, creio.

Na ânsia de criar ininterruptas necessidades, os objetos se confundiram.

O gravador de bolso conecta-se à internet, o celular tira fotos, a máquina fotográfica filma.

Há pessoas que almejam assimilar tudo isto, entender todas as linguagens. Já existe, inclusive, nos Estados Unidos, que são precursores em síndromes, uma doença disso.

Outras teimam em negar tudo. Outro dia perguntei a um amigo se ele tinha e-mail e ele riu e disse que não usa relógio.

Somos livres para necessitar.

Eu mesma, por exemplo, neste momento estou sem televisão. Possuo o aparelho, mas ele não tem mais fios, exceto os do DVD. Muita gente me olha de soslaio por isso.

Comecei a escrever um diário para minha neta, queria deixar um registro escrito com caneta de tinta, num caderno, com páginas de papel, a forma mais segura de se guardar textos. Eis que o caderno não anda e já escrevo em dois blogs para que ela leia no futuro.

Ainda não sabemos quanto tempo viverá a web. Uma rede pode se esgarçar no rompimento de um único fio. Desejo-lhe vida longa, mas me precavejo.

Afinal, aos cinquenta e quatro anos, dirijo-me a uma pessoinha de três meses.

Nenen, temos que estar preparadas para tudo: para ter um anel no dedo mindinho que será relógio, GPS, internet, gravador, filmadora, cartão do banco, ipod e meio de transporte.

E se o sistema entrar em pane, aqueceremos nosso rango num fogão à lenha, caminharemos muito, saberemos a quantas anda o passar do dia pelo trajeto do sol, e quando quisermos ouvir música, teremos que cantar nós mesmas.

É tudo uma questão de hábito.

Já disseram que o computador surgiu para resolver problemas que antes não existiam, e que o capitalismo cria necessidades, em vez de satisfazê-las.

Nós procuramos dosar o uso. Confesso que, mesmo de televisão desligada, comprei um laptop, que agora se chama notebook, porque as coisas também mudam de nome.

E você, até agora, não precisa se preocupar. Seu objetivo tem sido tentar, com afinco, morder o próprio pé. Tenta com seriedade, mas não consegue muita coisa.

Por enquanto, deixa a internet pra lá.

Quem sabe no futuro os computadores serão coisas "do tempo da vovó"?

 

 



Escrito por GlóriaH às 18h03
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Vovó fotografou um monte de coisas pra você ver.

Algumas já estão nos museus: máquinas de costura manuais, relógios de cuco, balança de pesinhos, telégrafos, máquinas de escrever, telefones de  manivela, projetor de slides, o próprio slide, ferro de passar roupa movido a carvão, fichas de telefone, rolos de filme, fogareiros, vitrola e som de carro imenso.

Além de capas de disco de vinil do Elvis Presley e outras coisas das quais até me esqueci o nome ou pra que servia. Você vai ver que os objetos eram bonitos, e que hoje podem enfeitar nossas casas, trazendo o passado de volta.

Ou, quem sabe um dia, num futuro longínquo, ainda redescobriremos estas desutilidades.

O tempo dirá.

Clique para vê-las. Estão todas na feira de antiguidades da Praça XV, que acontece aos sábados de manhã. 

 

 Clique aqui

Clique aqui

 



Escrito por GlóriaH às 01h13
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PRIVILÉGIO

 

 Aglae Lima

 

Li neste blog antigamente ouvir música era um privilégio, imagina! Privilégio ter uma vitrola e ouvir os poucos discos de vinil.

 

A palavra privilégio hoje em dia nos remete à maracutaia, corrupção, benesses indevidas.  

 

Houve um tempo em que privilégio era outra coisa. Quando menina, era um privilégio sair do subúrbio onde morávamos e vir pegar praia ali no Flamengo, então mais limpa.

 

Para nós, uma família pobre, ir ao cinema era um privilégio. Imagina, pegar a matinê lá em Madureira ou no centro do Rio. Era o supremo ritual, no escuro, no grande recinto abria-se a grande tela dos sonhos nos possibilitando empreender viagens que a falta do dinheiro impedia.

 

Era um privilégio pode ter livros, ainda que fossem comprados no sebo e não tivessem capa. Era uma delícia saboreá-los numa noite sem energia elétrica, tendo apenas uma vela para iluminar a leitura. Foi assim com o meu primeiro "Robson Crusoé".

 

Acordar e ver um dia de sol era um grande presente: era a possibilidade de ir a praia.

 

Quando vejo o ar blasé das novas gerações para as quais a internet ou o Ipod parecem corriqueiros, eu vejo que tive o grande privilégio de nascer na época em que nasci: aprendi a apreciar as novidades de ontem e as de hoje como um grande privilégio.

 



Escrito por Vovó viu às 21h50
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Minha neta, você é muito pequenina (3 meses!!!).

 

O mundo ainda é ligado por tantos fios,

que vovó volta e meia faz uma confusão daquelas.

 

Limpar os fios é arriscar-se a desconectar o disjuntor!!!

 

A NET combo (TV a cabo, telefone e internet), quando chove, desconfigura tudo.

 

Se a gente liga pra reclamar pedem pra tirarmos a televisão da tomada, contar até treze, virar de costas, dar três pulinhos.

 

E ligar de novo que "ELES" mandam novo sinal.

 

Me diga: há alguma chance de eu saber onde desligo a TV da tomada?

 

Sumiria tudo, até o telefone e a luz, se bobear.

 

Não teve outro jeito: saí da NET.

Estou livre da NET!

 

Sonho com um mundo wireless.

 

Você vai poder viver muito mais tranquila.

 



Escrito por Vovó viu às 22h41
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Este monitor já está quase em extinção.

Encontra-se no lixo com facilidade.

Ainda te mostro disquetes, caixinhas de som e outros desutensílios.

Estarão no museu quando você for crescida.



Escrito por Vovó viu às 22h40
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Alguém ia apertar um botão (não uma tecla) e o mundo ia se acabar.

Precisávamos aproveitá-lo, quando eu era jovem.

Que eu saiba, o mundo não se acabou.

O que eu não poderia prever, nestes idos dos anos setenta,

era a perda do sol radiante de verão carioca e da água limpinha da praia.

A água da praia de Ipanema tem fiapos de cabelo,

pedaços de plástico e outras coisas piores.

O Sol, que fazia bem, faz muito mal.

Quando aparece.

Quando eu tinha vinte anos,

o verão nos oferecia dias e dias de sol

sem uma nuvenzinha que fosse.

O mundo acabaria em Sol.

Eis que vira o século e chove, e chove.



Escrito por Vovó viu às 01h59
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Quando não havia carros, andava-se em charretes, carruagens, tílburis e outros meios de transporte parecidos.

 

Hoje ainda vemos algumas nas estradas do interior e nas pracinhas das cidades turísticas.

 

Estão quase em extinção.

 

Melhor para o cavalo.



Escrito por Vovó viu às 01h16
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Havia um carro chamado fusca, que não tinha ar-condicionado,

tinha quebra-vento e os táxis eram amarelos e sem o banco da frente.

Todos os tempos deixam saudades.

Recentemente tive um fusca branco, esse da fotografia.

Mas ele fundiu o motor na estrada de terra e eu fundi a cuca.

Comprei um carro zero, como convém a uma cinquentona.

Desisti de tudo que o fusca simbolizava.

Encontrei outros prazeres e comprei um lap top.



Escrito por Vovó viu às 01h06
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Houve um tempo em que comprávamos a carne no açougue e levávamos para moer em casa, no moedor.

Girávamos a manivela e a carne entrava por um lado inteira e saía pelo outro, moída.

Hoje é enfeite de parede.

Foram-se as manivelas, ficou a carne moída.



Escrito por Vovó viu às 01h06
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Houve um tempo em que os animais eram abatidos em casa.

Comprava-se um frango vivo, que era degolado em nossa cozinha.

Porcos no Natal.

Eu vi Dona Sirene matar com uma facada desajeitada que fez o bicho gritar pra valer e de noite, nós, as crianças, choramos, ao vê-lo, o porquinho, torrado com um tomate na boca.



Escrito por Vovó viu às 01h05
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Para comunicarmo-nos com alguém distante, escrevíamos cartas, que demoravam dias para chegar.

Muitos romances foram vividos e escritos com cartas extraviadas, interceptadas, guardadas para sempre, rasgadas, os destinos mudavam com o caminho das palavras.

Cartas anônimas, falsas, longas, enxutas.

Até Romeu e Julieta se deram mal por causa de uma carta atrasada.



Escrito por Vovó viu às 01h05
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Para tirarmos fotografias, era preciso conhecer o diafragma e a velocidade escolhidos, o filme não podia pegar luz, os laboratórios revelavam os negativos, que eram guardados anos a fios, nomeados ou bagunçados, e mandávamos fazer cópias quando queríamos.

 Era caro. Era lento. Era um privilégio de poucos.

Fotógrafos profissionais nos fotografavam com roupas especiais,

juntavam toda a família bem séria, penteada e poses pré-estabelecidas.

Era um ritual e um passeio.

Os objetos, que antigamente duravam séculos, vão durando cada vez menos.

Quem se lembrará dos disquetes?

Com eles vão embora expressões como "disca pra mim".



Escrito por Vovó viu às 01h04
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Houve um tempo em que as teclas pertenciam aos pianos.

Para telefonar, tínhamos que girar um disco com o dedo, escolhendo um número de cada vez.

Para desligar, colocávamos o fone no gancho.

Muito antes, os telefones tinham manivelas e falávamos com uma telefonista, que completava a ligação. Vi com meus próprios olhos esta prática numa cidade pequena.

Quero falar com o Fulano, diziam.

A telefonista quase sempre sabia o número de cor, que podia ter dois, três dígitos.

Que ainda se chamavam números.

Algumas coisas não desaparecem, simplesmente mudam de nome.

Pó-de-arroz e rouge continuam a pintar nossos rostos, renomeados.

Assim, desta forma, os mais velhos vão perdendo a língua.

 

Se a pessoa estava em outra cidade, uma telefonista falava com a outra, e quando finalmente ouvíamos a voz da pessoa querida, era um acontecimento.

Quem sabe todos da casa ficavam em volta do telefone, emocionados.

Nem sonhávamos com o MSN.

Sabíamos que estávamos distantes e não tínhamos a ilusão da proximidade,

tampouco da comunicabilidade.

Era mais simples reconhecer a incomunicabilidade.

Entretanto, quem viajava ficava muito mais longe.



Escrito por gloriahorta às 15h07
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 Houve um tempo em que a rosa dos ventos nos davam a direção dos ventos.

Tínhamos que olhar para fora.

Nem sonhávamos com o Clima-tempo.

 

 



Escrito por gloriahorta às 15h07
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Houve um tempo, antes das boutiques,

que as mulheres da família iam juntas para a costureira

com uma revista na mão, de onde copiávamos os modelos.

As mães, avós e tias costuravam em casa.

As máquinas de costura estavam presentes nas casas.

Tinham pedais e uma agulha que subia e descia

fazendo um ruído engraçado.

Nem sonhávamos com os shoppings.



Escrito por gloriahorta às 15h06
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 Houve um tempo em que os discos de vinil traziam as músicas

que eram ouvidas num gramofone.

A agulha  encostava no disco que girava e o som aparecia.

Era preciso muito cuidado para não arranhá-lo.

Depois veio a vitrola e a eletrola.

Ouvir música era um privilégio.

Nem sonhávamos em baixar músicas pela internet.

 

 



Escrito por gloriahorta às 15h04
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